castly talk: autoconhecimento, liberdade e inclusão com @otherdavis


Davis! Tudo bem? A conexão de um indivíduo com a música pode acontecer de diferentes maneiras. Então, para começar, conta como foi o início da sua trajetória e quando você decidiu de fato levar a discotecagem e produção como a sua ocupação profissional principal?

Sempre gostei de música e tive influências muito fortes na minha casa durante a infância e adolescência, onde eu já gravava fitas para os meus amigos, fazia festas, etc. Sou advogado de formação, mas aos 25 anos, quando fui internado por conta do meu abuso com álcool e drogas, tive que ressignificar a minha vida, buscar o que eu realmente gostava, quem eu queria ser e qual caminho eu gostaria de seguir. A partir de então comecei a comprar discos, equipamentos e fazer cursos para me atualizar. Ainda advoguei por muitos anos até que chegasse o momento de decidir onde iria dedicar mais o meu tempo, e acabei escolhendo o caminho da música.


Quando você enfim decidiu que gostaria de seguir por esse caminho, já sabia desde o início que era a música eletrônica? você se recorda de alguma inspiração que foi crucial pra você naquele momento?

Sim, desde o início. Quando eu tinha 13/14 anos, eu fui pela primeira vez em um club que na época chamava TOCO, fiquei deslumbrado com o papel que o DJ exercia, a forma com que ele conduzia a música colocando todos para dançar naquele ambiente, simplesmente fiquei fascinado por aquilo. Nomes como Ricardo Guedes, Vadão e Ricardo Crunfli, eram residentes desse club e me inspiraram com a forma em que eles conduziam o set, começando devagar com uma música bem envolvente, até chegar em um climax de pura alegria e euforia.

Esse aprendizado de como conduzir a pessoa do bar até a pista ficaram muito presentes na minha carreira até hoje.


Amanhecer na ODD

Qual característica — pessoal ou profissional — você considera essencial para ter chego até aqui e conquistado tantas conexões importantes?

Acho que a persistência, acreditar. Acredito que todo mundo consiga ser o que quiser, tendo em mente que isso envolve também lidar com coisas que você não gosta. Eu vejo pessoas próximas de mim que vivem com esse conflito, esquecendo que para fazer o que ama, existem também coisas igualmente necessárias a serem feitas que podem não ser tão prazerosas assim. Esse entendimento somado a valorização e respeito a outros artistas e a colaboratividade, foram pontos chaves que me trouxeram até aqui. 


Para você, qual a melhor parte em produzir, discotecar e atuar como headlabel?

Unir todas essas frentes permite me manifestar artisticamente de uma maneira mais ampla. Sou aficcionado pela discotecagem, ao tocar e ver a reação da plateia. Já com a produção musical eu me realizo ao ver barreiras sendo rompidas, vejo a música que eu criei viajar para lugares muito distantes. E como hedlabel eu consigo praticar minha curadoria, expressar meus sentimentos ao selecionar artistas e seus trabalhos para contribuírem para os nossos selos.


Qual foi o último trabalho que você fez que te marcou e por quê?

Todo dia é uma aventura nova. Acredito muito no raio-x do presente, tirar o extrato do momento atual. Então, falando do projeto mais recente, que não necessariamente seja o mais marcante...Estou trabalhando em um disco novo que é uma colaboração com diversos artistas da América Latina, e que deve sair em julho pela In Their Feelings. Me conectar com pessoas do mundo inteiro para criar tem sido uma experiência bastante acolhedora e uma troca muito rica durante esse período de isolamento.


Davis e Zopelar no estúdio

Compartilha um pouco do teu setup de produção… quais são seus equipamentos preferidos? Como você busca deixar sua identidade naquilo que você faz?

Eu e o Zopelar trabalhamos juntos há muitos anos e recentemente montamos um estúdio bem legal. Fomos juntando equipamentos que acabaram dando essa identidade pro meu som, como a TR-808, diversos sintetizadores como Juno 60 e 106, também temos um ARP2600 da década de 70 (este modelo foi usado para criar a voz do R2-D2 no filme Star Wars).

Aqui é legal lembra que o mais importante do que os equipamentos são as pessoas envolvidas e a forma de trabalho, o aspecto colaborativo neste processo criativo foi se aprimorando, quando fui rompendo padrões e descobrindo o meu próprio estilo até o ponto em que hoje as pessoas conseguem captar a sinergia musical que existe no meu trabalho. 


Desafios fazem parte da jornada de qualquer artista. Quais experiências ou acontecimentos foram fundamentais para a evolução do profissional que você é hoje?

No início foi importante entender o que eu não queria e, em paralelo, descobrir como eu queria me relacionar com a música, esse foi o passo fundamental. O nosso coletivo ODD completou 5 anos agora em Abril e ela foi a melhor confirmação das minhas escolhas. Conseguimos promover um ambiente seguro onde a cena eletrônica é para todos. A mais interessante para mim foi que ODD nasceu como uma festa de rua gratuita, com objetivo de convidar as pessoas a ocupar o espaço público e também como palco para manifestações artísticas (música, visuais e performance). Logo passamos a ocupar locais inusitados como praças, sauna desativada, galpões e fábricas desativadas, puteiros e viadutos, isso acabou inspirando muita gente. Entendemos até hoje o quanto isso é valioso para eles e, consequentemente, para nós.

Amanhecer na ODD com Daniel Avery e Massimiliano Pagliara - 24hrs de festa

Os eventos que você organiza com a ODD vão muito além da música. As noites são preenchidas por performances, o ambiente é de total liberdade e a identidade da festa também assumiu uma forma bastante singular. Como foi construir estes pilares que hoje sustentam a ODD?

Foi muito orgânico. Nós sempre pensamos na ODD em um lugar seguro, onde as pessoas poderiam se sentir totalmente à vontade, principalmente aquelas que a sociedade muitas vezes marginaliza. Partimos então dessa essência de liberdade seguido de uma estrutura muito forte em termos de som e imagem. Muitas pessoas que vão a ODD falam sobre o som, sobre as performances, luz, o flyer e, especialmente a energia da pista. Toda essa combinação de visuais e música é muito pensada. E nossos valores seguem sendo praticados todos os dias há cinco anos, e neste processo, onde ouvimos ouvindo nossa comunidade, foram surgindo artistas

maravilhosos dispostos a colaborarem conosco.


Que mensagem você acredita que seu trabalho te permite passar para as minorias?

Acredito que a possibilidade de inclusão, de abrir espaço para outros artistas e pessoas nessa jornada. Passei por muitas dificuldades até chegar até aqui e com elas eu evolui. Aprendi sobre meus privilégios e como poder usá-los da melhor forma em prol de mudanças sociais construtivas. Neste processo pude conquistar algumas coisas muito importantes, como uma rede de pessoas especiais, profundamente interessadas em mudanças sociais. Entendi que era importante devolver aquilo que eu ganhei da vida. É fundamental que nosso sistema inspire e mobilize os indivíduos, que possamos focar em soluções dos problemas sociais.


Por fim, se você pudesse ser um personagem, quem você buscaria ser e por quê?

Gostaria de ter a coragem do Zumbi dos Palmares unida a tecnologia Morpheus, personagem do filme Matrix. Para ter essa possibilidade de me movimentar em diferentes tempos, e a partir disso ter o poder de fazer algumas mudanças (rs).



Galeria de Fotos ODD - Fotos por Felipe Gabriel I Playlist @otherdavis + Castly




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