Castly Talk: Corona Vírus nos convida a olhar para dentro e arrumar a casa. @nathalianw

O cenário mundial se encontra em uma espécie de estado apocalíptico.

O vírus COVID-19 enviou ondas de choque para o mundo todo, atingindo de forma inesperada todos os setores da economia das mais diversas culturas e a moda não está sendo isenta da paralisia social e financeira.


Embora a China tenha conseguido diminuir a quantidade de novos casos diários, o caminho ainda é longo e independentemente dessa redução, comunidades do mundo todo estão sendo instadas para isolar ou trabalhar em casa.


Para lidar com esse novo cenário, em que a distancia física é fundamental, medidas inéditas foram adotadas por marcas, como a agressividade no marketing para venda de produtos online, apresentação de coleções sem plateia, transmissões nas redes sociais, etc.

Pessoas trancadas em casa e ainda sim sendo (mais!) invadidas e bombardeadas de conteúdo publicitários e ofertas imperdíveis a todo momento. A onda da efemeridade nos invade onde não nos exigem decisões profundas, existenciais, mas respostas rápidas, impulsivas. Este é o parâmetro do contato contemporâneo, inclusive nas relações pessoais.



O maior e provavelmente mais fundamental sucesso  da ofensiva de mercado até agora tem sido o gradual mas persistente esfacelamento das habilidades de sociabilidade, reforçado e acelerado pela tendência inspirada no estilo dominante de tratar outros seres humanos como objetos de consumo e julgá-los, segundo o volume de prazer que oferecem. Nesse processo [diz ele] , a solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor” (Bauman, 2003, p.96)


Em tempos sombrios, o mundo nos convida para finalmente olharmos para dentro e fazer uma auto verificação referente aos nossos hábitos em geral. Agora não é hora de comprar coisas, mas chegou o momento de entendermos a toxicidade de nossos próprios excessos, não por mais 15 dias mas possivelmente de forma permanente.



Chegou o ponto da virada em relação ao consumo.

O que faremos então diante desse cenário sombrio em que vivemos?


Trabalho com serviços e obviamente é o mercado mais afetado diante desse isolamento social, tenho em minhas mãos uma grande responsabilidade como empreendedora zelar pela saúde e bem estar dos meus parceiros e profissionais que trabalham ao meu lado. Por isso, neste momento não estou preocupada em fazer conexões pessoais entre artistas e marcas.

Ou melhor, entre pessoas e PESSOAS.


Pois, por trás das marcas, as vezes esquecemos de que existem pessoas assim como nós, com hábitos, gostos e necessidades.


Chegamos agora em um momento crucial em entender quem está por trás das empresas que andamos consumindo e nos aliando. E para que seja feito de forma assertiva, exige autoconhecimento.

Para isso, nada mais simbólico e necessário do que desperta a nossa consciência dentro do nosso próprio lar.


O que nos constitui como seres humanos afinal? O que gostamos? Estamos comprando de PESSOAS que criam produtos e serviços que nos identificamos, de fato? Estamos olhando para empreendedores locais? Estamos olhando para empresas responsáveis socialmente e ambientalmente?


Não vou me alongar muito sobre os impactos negativos de um consumo desenfreado. Se quiser mais informações, escrevi um artigo na Black Friday que fala sobre isso aqui.


A minha intenção aqui é entender que naturalmente as marcas vão nos saturar de anúncios e precisamos estar prontos para isso. Necessitamos de uma abordagem transdicisciplinar em relação a tudo isso. Hoje e sempre.



Termos como “saturação de informação “dessubstancialização do sujeito” (o indivíduo sente-se vazio), e “desreferencialização do real” (o que é tido como real passa a não ser mais norteado por referências estáveis) têm sido usados para descrever a experiência humana nos dias de hoje. O termo  “neo-individualismo pós-moderno”, descreve o sujeito que vive sem  ideais a não ser  cultuar sua  própria imagem e buscar satisfações imediatas. Narcisista, consumista  e vazio, ele está no centro da crise de valores pós-moderna (Ferreira dos Santos, 1986, p.30). Não é sem razão que na economia da sociedade de consumo, valores calcados no prazer de usar bens e serviços faz dos shopping seu templo favorito.


Para isso, podemos fazer um paralelo deste pensamento evolutivo de consumo pensando na teoria de psicoterapia desenvolvido por Fritz Perls chamado de Gestalt-terapia.


Fritz propôs o conceito de que o desenvolvimento psicológico e biológico de um organismo se processa de acordo com as tendências inatas desse organismo, que tentam adaptá-lo harmoniosamente ao ambiente.


Ou seja, se nos conectarmos de fato com empresas que se alinhem com os nossos verdadeiros propósitos, naturalmente o consumo se torna mais seletivo e consciente.

Dessa forma, as empresas só estariam vendendo realmente para pessoas que de fato se conectem com o produto, de forma mais natural e orgânica. Consequentemente, não precisariam nos bombardear com propagandas desesperadas para atrair consumidores, fugindo assim da obscolência programada que nos permeia.



“Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda aos seus conceitos e idéias, menos eficientemente ele consegue funcionar.”

Fritz Perls


Do jeito que está, não está funcionando.

Precisamos colocar ordem no mundo, e esse trabalho, começa em casa.



Nathalia Nasralla & Friends (Porque não fazemos nada sozinhos!)

Empreendedora e Diretora Criativa na @castlyconcept


Fontes:


https://wwd.com/fashion-news/fashion-scoops/how-coronavirus-effecting-fashion-industry-trade-shows-stock-prices-1203508244/

https://models.com/oftheminute/?p=132427

https://www.igt.psc.br/Artigos/gestalt-terapia_hoje.htm

Perls, Fritz (1942) The Ego, Hunger and Aggression"(1942)

Bauman, Zygmunt (1998) O Mal Estar da Pós- Modernidade. Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro.

Bauman , Zygmunt (1999) Modernidade e Ambivalência . Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro.

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