Carta aberta de um preto sonhador por @caiquenucci




Admito que demorei para conseguir entender o que escrever aqui. Li, reli. Pensei inúmeras maneiras em como conseguir me expressar de forma clara e coerente neste momento tão crucial que estamos vivendo. Demorei mais ainda para entender como cheguei aqui e a importância de ter esse lugar de fala destinado a uma pessoa como eu.


Logo que nasci, fui deixado em um orfanato pela minha mãe biológica. As freiras que faziam trabalho voluntário no local cuidaram de mim até o primeiro ano de vida. Quando o processo da minha adoção foi finalizado, renasci no encontro com meus pais e minha nova família adotiva. Desde criança, sempre fui muito observador. Uma das coisas que mais me intrigava era a diferença entre a minha pele e a dos que me cercavam. Meus pais são brancos de olhos azuis, eu sou negro de olhos castanhos.


Quando tinha nove anos, em uma das atividades escolares, precisávamos desenhar em uma folha nossa família e coisas que gostávamos. Lembro de abrir o estojo e pegar meus lápis para colorir. Azul para o céu, verde nas árvores. Algumas cores vibrantes para as roupas no desenho e o rosado para “cor-de-pele”. Silêncio seguido de dúvida. Ali, foi meu primeiro choque. Não entendia por que meus pais tinham uma cor diferente da minha. Aquilo nunca me atrapalhou. Como eu poderia usar o marrom para colorir o desenho que me representava sendo que já tinha utilizado no tronco da árvore e no chão da calçada. Por que eu tinha cor de terra e meus pais um lápis só para a cor deles? Por que a minha pele não tinha cor? No mesmo dia, quando cheguei da escola, fui correndo mostrar o desenho para minha mãe. Ela se sentou comigo e começou a explicar que eu não havia crescido em sua barriga, mas sim, que vinha do coração. E que aquele era um lugar muito mais especial.


Aos doze anos, no início da minha pré adolescência, eu queria ser ator. Quando chegava da escola, ia correndo para a televisão e ficava fissurado nos filmes e novelas. Em um dos episódios marcantes, o mocinho beijava sua amada e o casal feliz vencia o grande vilão, percebi que era aquilo que queria para minha vida. Vencer um grande vilão e viver o feliz para sempre. Naquela noite, durante o banho, me tranquei no banheiro e comecei a me olhar no espelho. Pele escura, cabelos crespos, lábio grande. Completamente diferente do mocinho da novela. Aquilo precisava mudar. Eu precisava mudar. E não demorou muito até que partisse para a ação. Peguei uma tesoura de unha e comecei a cortar minhas sobrancelhas. Tenho falhas nelas até hoje. Quando entrei no banho, passava a bucha com tanta força na pele à ponto de ficar vermelha e esfolada. Queria tirar aquilo. Queria outra pele. Eu só precisava me sentir representado.


Graças a muito trabalho, meus pais adotivos conseguiram se estabilizar financeiramente e me proporcionar uma vida tranquila, com bons estudos, sem faltar nada. Sempre estudei em escolas particulares, onde os alunos eram educados com ensino religioso, orientação pedagógica profissional e muitos outros privilégios que outras crianças que dependem da educação pública e estadual não tem até hoje.


Com quatorze anos, na sala de aula, discutindo com um colega de classe por besteiras adolescentes, xingamentos correm soltos para todos os lados. Ele me agredia verbalmente, e eu rebatia sem pensar duas vezes. Nas falas mais pesadas, ele usava palavras como preto, piche, macaco. E eu rebatia, ignorava. Sabia que não era aquilo. Meus pais haviam me educado para saber que eu não era aquilo. Naquela briga, a fala que mais me marcou foi: “Você é preto, nem sua mãe te quis, por isso você é adotado.” Aquilo foi demais. Corri para cima dele e os nós dois acabamos na diretoria da escola. No final, desculpas ditas da boca para fora.


Já que por falta de referências profissionais, acreditava que não conseguiria ser ator, aos dezessete anos me mudei para São Paulo para morar sozinho, estudar e trabalhar com moda. Já era menino grande, pensava que conhecia o mundo e ninguém mais iria me subestimar. Em uma das noites quentes de março, estava voltando para minha casa depois de um encontro com amigos e fui vítima de um ataque homofóbico. Eram nove e pouco da noite quando três caras apareceram na sombra da rua e me abordaram. Um segurou meus braços nas minhas costas, outro agarrou minhas pernas e o terceiro começou a socar o meu estômago. A agressão física também vinha amarrada à palavras que doiam como se fossem pancadas na cabeça. “Preto, viado, macaco”. “Cala a boca se não vamos te matar aqui mesmo.” Eu não sabia o que doía mais. Por que eles estavam fazendo aquilo? Por que comigo? O que eu havia feito?

Só conseguia lembrar do que minha mãe sempre dizia:”Teu anjo da guarda é forte. Pode confiar.” E foi. Saí dali sem documentos, celular, com um supercílio aberto e alguns hematomas no corpo. Poderia ter sido pior. E estamos cansados de saber de muitos casos que foram.


Desiludido. Abusado. Desacreditado. Machucado e sem fé.


Naquele mesmo ano, por obra ou acaso do destino, uma agência de modelos havia me contatado para participar de seu casting. Eu, que não acreditava que conseguiria ser ator, como seria modelo? Tomei coragem e com todo apoio dos meus pais, fui mais uma vez colocar a cara a tapa. E foi ali que me encontrei. Depois de todas as aulas de passarela, desenvolvimento pessoal, percepção musical, auto-imagem e reflexão estética, finalmente me sentia bem comigo. Logo após o ataque, fui chamado para fazer parte da seleção dos modelos de um desfile do São Paulo Fashion Week.



Quando cheguei no backstage do desfile, uma das primeiras pessoas que eu encontrei foi o Emicida, afinal, a marca era dele. A LAB Fantasma é um coletivo de amantes de arte urbana, fãs de hip hop, rap, musica preta, história preta. Ver todos aqueles modelos pretos reunidos ali, todos carregando um sentimento comum, fez ligar alguma coisa dentro de mim que estava adormecida a algum tempo. Me fez perceber que eu não estava sozinho. E quando entrei na passarela ao som de Avuá nas vozes de Emicida, Rael, Drik Barbosa e Fiot e a seguinte frase saía das caixas de som: “Triunfo pra nós, viva o povo preto, a rua é noiz, então segue o flow papo de progresso, levante, grito, avuá, nossa voz ecoa, taco fogo nas faixa, faixa preta sou preta, sou gueto, sou rap, força. Disseram que eu não deveria sonhar, sonhei alto. Sou pássaro livre e to pra cantar” - tive a certeza de estar no lugar certo.


Em 2020, depois de cursar faculdade de publicidade e estar quase me formando em design de moda, compreendi onde quero estar. Trabalho com produção de moda e jornalismo em assessorias e agências de comunicação e, apesar de ser um mercado fascinante, rodeado de liberdade de expressão, ainda é um espaço onde pessoas pretas precisam lutar o dobro para conseguir ter voz. Por trás de todas as aparências de representatividade que as marcas estampam em suas campanhas de coleções utilizando da imagem de modelos negros como estratégia de marketing, além disso, ainda existe aquele tipo de profissional “estrela” que mesmo te conhecendo, passa reto e ignora sua existência só pela cor da sua pele. Felizmente, nada que um sorriso como resposta não resolva.



Hoje, o amor pela moda me gás para continuar, sei o que eu quero e vou lutar o quanto precisar para conseguir.


Hoje, sei o que sou. Sou preto. Sou humano. E digo e repito com muito orgulho. Eu. Sou. Preto. Porque hoje sei que a expressão negro é errada, que na sua origem grega ela vem de nigro e significa inimigo. Hoje, eu entendo minha história. E eu não sou inimigo. Hoje, eu sei quantos tiveram que lutar para eu estar aqui. E foram considerados inimigos.


E para aquele menino preto, dos olhos castanhos, observador, que sonhava com um mundo que pode existir, eu digo: Não desista. Continue lutando por você e por todos os outros pretos que existem e irão existir. Essa luta é sua, é deles, é nossa, é de todos nós - todos os humanos. Todos somos humanos. E todos temos o direito de viver.


Hoje, sei o que sou. E quero continuar sendo no amanhã.



Caique Nucci


Curadoria Castly de conteúdos para ir além de partilhar a Hashtag #BlackLivesMatter e entender como combater o racismo;


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Curadoria; Caique Nucci & Nathalia Nasralla


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